Começava ali a ideia, tão presente nas teses nacionalistas implantadas no país, de suspeitar de investimentos estrangeiros feitos na Amazônia. A Ford encerrou o acordo com o Brasil em 1945, deixando como legado o município de Fordlândia, perdido no meio da Amazônia. O Brasil, por sua vez, jogou fora a oportunidade de aproveitar a sua vantagem comparativa de ser um grande player internacional na venda de látex em pleno ciclo da borracha.
Em 2021, de certa forma, a história se repete. A Ford anunciou o fim das suas atividades no Brasil, com o fechamento das suas operações em Camaçari e Taubaté. A saída do país encerra um segundo capítulo da história da marca no Brasil.
Apesar dos quase 90 anos de diferença de um capítulo para o outro, nossa estratégia para atrair empresas permaneceu a mesma: a concessão de subsídios e benefícios fiscais.
Nos últimos 63 anos, o país gastou os proverbiais rios de dinheiro em benefícios fiscais, ajudas e incentivos para as montadoras, com resultados no mínimo questionáveis.
Não faltaram, em diferentes governos, programas para tentar corrigir ineficiências e custos brasileiros para manter as montadoras no país a qualquer preço.
Mesmo assim, mais uma vez a conta chegou. O custo Brasil superou os incentivos, e algumas indústrias são obrigadas a fechar suas operações.
O tradeoff entre os incentivos fiscais e o Custo Brasil parece não ser suficiente para manter as empresas aqui.
As duas saídas da Ford do Brasil são situações muito semelhantes de políticas econômicas e públicas equivocadas e ineficientes em diferentes momentos da história. Continuamos a usar a mesma receita para corrigir os mesmos problemas, e esperamos resultados diferentes...
O Brasil continua jogando para debaixo do tapete seus reais problemas, e empurrando com a barriga as reais soluções.
Ao invés de aceitarmos o desafio de reformas ousadas como diminuir os encargos trabalhistas, simplificar o labirinto tributário e dar segurança jurídica e regulatória aos investimentos, sempre preferimos a fórmula simplória e errada de criar uma isenção aqui, outra ali.
Conceder subsídios ou incentivos fiscais pode ser uma política boa para o país, desde que os resultados maximizem as nossas vantagens comparativas, gerando empregos e renda. Mas para isso, é preciso um plano de país, como foi feito em diversos países asiáticos.
No mundo pós-pandemia, precisaremos de projetos que aumentem a nossa participação no comércio mundial. Nossa grande vantagem comparativa é sermos grandes produtores de commodities agrícolas e minerais, como a soja e o açúcar, passando pelo minério de ferro e o petróleo — tudo que o mundo precisa para voltar a crescer.
Porém, por um complexo de vira-lata, não entendemos a importância que possuímos no cenário mundial como grandes produtores dessas commodities. Com isso, não conseguimos aproveitar nossas vantagens comparativas nesses setores, perdemos oportunidades, perdemos mercado e vamos ficando cada vez mais para trás no jogo.
O governo — ao invés de incentivar um polo de montadoras de automóveis e de indústrias do século passado — deveria focar esforços na construção de uma infraestrutura essencial de alta qualidade e baixo custo, envolvendo portos, estradas, ferrovias e dutos.
Isso reduziria o custo Brasil e nos tornaria ainda mais competitivos como fornecedores de commodities para o planeta. Não há nada melhor para gerar empregos do que investimentos em infraestruturas.
Precisamos abrir nossa cabeça, acordar para o mundo, mudar de estratégia e reinventar o Brasil.
Adriano Pires é fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). Pedro Rodrigues é sócio do CBIE e criador do canal Manual do Brasil, no YouTube.





